CEK CONTABILIDADE

Pequena e microempresa encaram reforma tributária em meio a custo em alta e juro caro

18 de maio de 2026
Gazeta do Povo

A reforma tributária chega em momento crítico para as pequenas e microempresas (PMEs). Os juros para as empresas atingiram 24,6% ao ano, considerando os recursos livres — aqueles oferecidos pelo mercado. Segundo o Banco Central (BC), as taxas estão entre as maiores desde 2022, enquanto o crédito segue restrito.

As tensões no Oriente Médio também impactam essa equação. De acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o diesel ficou 15,8% mais caro desde o início das animosidades. Assim, os insumos utilizados pelas indústrias aumentaram 2,53% no primeiro trimestre, pressionando as margens de lucro. É a maior alta para o período desde 2022, conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além disso, a Resolução 186 do Comitê Gestor do Simples Nacional, publicada em 11 de maio, antecipou para setembro de 2026 uma decisão fundamental sobre o regime tributário, com efeitos já em janeiro de 2027. Empresas e contadores terão os próximos meses para escolher entre permanecer no Simples, adotar o Simples Híbrido ou migrar para o Lucro Real. A decisão impacta diretamente a rentabilidade das empresas.

 

Cenário pressiona as PMEs e encolhe margens

A conjuntura externa pressiona os custos em um momento em que pequenas e microempresas se adequam à reforma tributária. A elevação nos preços do petróleo e do diesel reduz as margens de lucro de quem não consegue repassar o aumento aos clientes.

Ainda assim, no mesmo período, as PMEs registraram crescimento de 4,5% na movimentação financeira em comparação com 2024, aponta a Omie, fabricante de sistemas de gestão empresarial (ERP). O cenário, porém, é fragmentado: a indústria de transformação expandiu 9,7% no faturamento médio real; o comércio entrou em seu quinto recuo trimestral consecutivo; e a infraestrutura contraiu 1,0%, pressionada pela taxa Selic em 14,5% ao ano.

Segundo Maurício Beraldi, economista da Omie, o crescimento das PMEs embute uma economia desigual. “O novo sistema tributário funde burocracia e estratégia comercial”, afirma. Os impactos operacionais são imediatos:

  • Visibilidade de margem: o empresário precisa conhecer a margem líquida após tributação em tempo real. Definir preços com base em estimativas médias pode gerar prejuízo operacional imediato.
  • Gestão de compras: a decisão de compra passa a depender da capacidade do fornecedor de gerar crédito tributário integral. Comprar sem nota fiscal ou de fornecedores informais significa pagar imposto sobre o valor bruto, sem compensações. O produto fica mais caro e menos competitivo.

 

Simples, híbrido e o dilema tributário para 2027

“Empresas que continuarem no Simples Nacional não terão muita mudança de carga tributária — vão continuar em um regime favorecido”, afirma Beraldi. “Já as que forem pressionadas a mudar de regime ou adotar o Simples Híbrido enfrentarão tributação maior.”

A neutralidade fiscal prometida pela reforma, porém, é mais nuançada. Os efeitos serão sentidos caso a caso, avaliam especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo. Na prática, algumas empresas terão aumento de tributação se não ajustarem a gestão de créditos tributários.

No mercado entre empresas — quando uma vende para outra — a reforma introduz uma espécie de “seleção natural”. As PMEs enfrentarão a pressão dos clientes por créditos tributários integrais.

Sob essa perspectiva, o Simples pode se transformar em uma armadilha: ao não permitir que o comprador aproveite integralmente os créditos de Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), a PME optante pelo regime se torna “mais cara” para o cliente corporativo.

O empreendedor precisará enfrentar o dilema entre permanecer no Simples e perder mercado, ou migrar para o sistema de débito e crédito, no regime híbrido, assumindo carga administrativa e tributária maior.

Para Dayane Robledo, contadora e diretora financeira da Confederação Nacional de Jovens Empresários (Conaje), o Simples ainda faz sentido para empresas muito pequenas, com faturamento inicial e operação enxuta. “O Simples não é automaticamente a melhor opção; é a mais simples”, afirma.

 

Escolha do regime exige análise profunda do negócio

A escolha exige simulações precisas e análise aprofundada da posição da empresa na cadeia de suprimentos. Ao migrar para o sistema de débito e crédito, a empresa passa a lidar com a alíquota padrão do IVA, mas pode aproveitar abatimentos nas aquisições — mecanismo crucial para neutralizar parte do aumento tributário.

A antecipação do prazo para setembro deste ano reduz o tempo disponível para análise. Jéssica Amorim, diretora do núcleo de Reforma Tributária da Valestrá, observa que a resolução transformou uma escolha “quase de rotina” em uma “análise aderente à realidade de cada negócio, considerando perfil de custos, dinâmica operacional e impactos concretos ao longo de 2027”.

A pressão afeta especialmente prestadores de serviços voltados ao mercado corporativo — como consultorias, auditorias e empresas de engenharia. O principal custo dessas atividades é a folha de pagamento, que não gera crédito no novo sistema e oferece poucas oportunidades de compensação tributária nas aquisições.

Além disso, o fim do ISS e sua incorporação ao IBS exigirão revisão rigorosa de contratos, sob risco de prejuízos silenciosos e corrosão de margens, aponta Glaudson Ferreira, especialista em gestão tributária da GestãoClick.

 

Retenção automática de impostos pode provocar colapso de liquidez

Independentemente do regime escolhido, todas as PMEs enfrentarão um desafio operacional severo: a retenção automática de impostos no ato do pagamento, conhecida como split payment. A medida tende a provocar asfixia imediata de liquidez — problema que nenhuma das opções de regime elimina completamente.

A retenção automática representa a maior mudança operacional das últimas décadas. Com esse mecanismo, o governo elimina o período em que o dinheiro do imposto permanecia temporariamente no caixa da empresa antes do recolhimento — intervalo frequentemente usado pelas PMEs para financiar capital de giro. Para muitas delas, o split payment poderá ter impacto devastador.

A liquidez passará a ser testada diariamente. Sem esse fôlego financeiro, empresas precisarão de linhas de crédito mais robustas ou de gestão de caixa praticamente impecável. O risco de colapso financeiro por insuficiência de liquidez imediata é real para quem não reestruturar os ciclos financeiros antecipadamente.

 

As seis armadilhas críticas da reforma tributária para as PMEs

Ferreira, da GestãoClick, alerta que “a falta de preparo agora pode custar muito mais do que os novos tributos no futuro”. A integração entre sistemas de vendas, estoque e contabilidade deixa de ser um diferencial tecnológico para se tornar uma condição de sobrevivência.

Sondagem da Omie, realizada em abril com 433 gestores de PMEs, mostra que 48% ainda não iniciaram análises ou permanecem em estágios iniciais de adaptação, enquanto 29% já adaptam processos de forma efetiva.

Entre os participantes, 68% reconhecem a necessidade de aderir a um sistema ERP atualizado para realizar a transição até 2033. Embora 79% reconheçam a importância do apoio estratégico do contador, apenas 50% participaram de reuniões ou eventos sobre a reforma.

Segundo Ferreira, empresas que não se prepararem enfrentarão seis armadilhas críticas capazes de comprometer sua viabilidade:

  • Definição de preços baseada no modelo antigo: ignorar que IBS e CBS incidem sobre valor agregado, alterando a base de cálculo real.
  • Impostos em cascata sem compensação: não identificar pontos em que tributos se acumulam sem gerar créditos compensatórios.
  • Fornecedores informais: manter parceiros que não emitem documentos fiscais eletrônicos, impedindo a geração de créditos.
  • Negligência com fluxo de caixa: não provisionar a perda de liquidez decorrente da retenção automática de impostos.
  • Ausência de tecnologia de integração: operar com sistemas desconectados, gerando erros de apuração e multas.
  • Atraso na transição cultural: tratar tributos como problema exclusivo da contabilidade, e não da estratégia comercial.

Empresas que ignorarem essas armadilhas tendem a perder espaço para concorrentes mais eficientes.

Compartilhe nas redes sociais

Facebook Twitter Linkedin
Voltar para a listagem de notícias
Fechar

Política de Cookies

Seção 1 - O que faremos com esta informação?

Esta Política de Cookies explica o que são cookies e como os usamos. Você deve ler esta política para entender o que são cookies, como os usamos, os tipos de cookies que usamos, ou seja, as informações que coletamos usando cookies e como essas informações são usadas e como controlar as preferências de cookies. Para mais informações sobre como usamos, armazenamos e mantemos seus dados pessoais seguros, consulte nossa Política de Privacidade. Você pode, a qualquer momento, alterar ou retirar seu consentimento da Declaração de Cookies em nosso site.Saiba mais sobre quem somos, como você pode entrar em contato conosco e como processamos dados pessoais em nossa Política de Privacidade. Seu consentimento se aplica aos seguintes domínios: palmiericonsultoria.com.br

Seção 2 - Coleta de dados

Coletamos os dados do usuário conforme ele nos fornece, de forma direta ou indireta, no acesso e uso dos sites, aplicativos e serviços prestados. Utilizamos Cookies e identificadores anônimos para controle de audiência, navegação, segurança e publicidade, sendo que o usuário concorda com essa utilização ao aceitar essa Política de Privacidade.

Seção 3 - Consentimento

Como vocês obtêm meu consentimento? Quando você fornece informações pessoais como nome, telefone e endereço, para completar: uma solicitação, enviar formulário de contato, cadastrar em nossos sistemas ou procurar um contador. Após a realização de ações entendemos que você está de acordo com a coleta de dados para serem utilizados pela nossa empresa. Se pedimos por suas informações pessoais por uma razão secundária, como marketing, vamos lhe pedir diretamente por seu consentimento, ou lhe fornecer a oportunidade de dizer não. E caso você queira retirar seu consentimento, como proceder? Se após você nos fornecer seus dados, você mudar de ideia, você pode retirar o seu consentimento para que possamos entrar em contato, para a coleção de dados contínua, uso ou divulgação de suas informações, a qualquer momento, entrando em contato conosco.

Seção 4 - Divulgação

Podemos divulgar suas informações pessoais caso sejamos obrigados pela lei para fazê-lo ou se você violar nossos Termos de Serviço.

Seção 5 - Serviços de terceiros

No geral, os fornecedores terceirizados usados por nós irão apenas coletar, usar e divulgar suas informações na medida do necessário para permitir que eles realizem os serviços que eles nos fornecem. Entretanto, certos fornecedores de serviços terceirizados, tais como gateways de pagamento e outros processadores de transação de pagamento, têm suas próprias políticas de privacidade com respeito à informação que somos obrigados a fornecer para eles de suas transações relacionadas com compras. Para esses fornecedores, recomendamos que você leia suas políticas de privacidade para que você possa entender a maneira na qual suas informações pessoais serão usadas por esses fornecedores. Em particular, lembre-se que certos fornecedores podem ser localizados em ou possuir instalações que são localizadas em jurisdições diferentes que você ou nós. Assim, se você quer continuar com uma transação que envolve os serviços de um fornecedor de serviço terceirizado, então suas informações podem tornar-se sujeitas às leis da(s) jurisdição(ões) nas quais o fornecedor de serviço ou suas instalações estão localizados. Como um exemplo, se você está localizado no Canadá e sua transação é processada por um gateway de pagamento localizado nos Estados Unidos, então suas informações pessoais usadas para completar aquela transação podem estar sujeitas a divulgação sob a legislação dos Estados Unidos, incluindo o Ato Patriota. Uma vez que você deixe o site da nossa loja ou seja redirecionado para um aplicativo ou site de terceiros, você não será mais regido por essa Política de Privacidade ou pelos Termos de Serviço do nosso site. Quando você clica em links em nosso site, eles podem lhe direcionar para fora do mesmo. Não somos responsáveis pelas práticas de privacidade de outros sites e lhe incentivamos a ler as declarações de privacidade deles.

Seção 6 - Segurança

Para proteger suas informações pessoais, tomamos precauções razoáveis e seguimos as melhores práticas da indústria para nos certificar que elas não serão perdidas inadequadamente, usurpadas, acessadas, divulgadas, alteradas ou destruídas.

Seção 7 - Alterações para essa política de privacidade

Reservamos o direito de modificar essa política de privacidade a qualquer momento, então por favor, revise-a com frequência. Alterações e esclarecimentos vão surtir efeito imediatamente após sua publicação no site. Se fizermos alterações de materiais para essa política, iremos notificá-lo aqui que eles foram atualizados, para que você tenha ciência sobre quais informações coletamos, como as usamos, e sob que circunstâncias, se alguma, usamos e/ou divulgamos elas. Se nosso site for adquirido ou fundido com outra empresa, suas informações podem ser transferidas para os novos proprietários para que possamos continuar a vender produtos e serviços para você